Profissão GearHead – Entrevista com Fábio Fukuda, o dono da Fukuda Motor Center

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O AGH inaugura o projeto Profissão GearHead, onde entrevistaremos, na medida do possível, personalidades que possuem seu emprego relacionado ao mundo GearHead, seja um mecânico, um funileiro, um piloto ou um vendedor de automóveis, qualquer profissão ligada aos carros e que deve ser feita com o coração. O primeiro post conta com o mecânico Fábio Fukuda, dono da Fukuda Motor Center, oficina localizada na Zona Norte de SP.

Antecipadamente, gostaria de agradecer ao Fábio e toda a equipe da Fukuda Motor Center pela recepção e por concederem esse espaço para nós do Amigos GearHeads. Fiquem com a entrevista!

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Por favor, se apresente para os que não estão familiarizados com o seu trabalho.

Meu nome é Fábio Fukuda, sou consultor técnico da revista “Quatro Rodas” há 16 anos. Trabalho com oficina mecânica há 24 anos e tenho 43 anos.

A empresa foi fundada em 1990. Na época, quais foram os fundadores e quais os objetivos da oficina?

Quem fundou a oficina foi meu pai, mas minha história é anterior a isso. Começou com meu avô, que tinha uma oficina mecânica no Carandiru, que depois foi transferida para a Av. Água Fria. Sempre na Zona Norte. Da Água Fria meu pai começou a fazer alguns carros de competição e de lá ele montou uma oficina especializada em automobilismo, lidando com a Divisão 1 e Divisão 3. Dessa oficina ele foi para a Fiat por 16 anos e trabalhou no departamento de automobilismo da Fiat. Fez o Campeonato de Marcas, Copa Fiat, Fórmula Fiat. Assim que ele saiu da Fiat, eu já me interessava em trabalhar com automóveis e fui trabalhar com ele numa oficininha que era na garagem do meu tio. O intuito sempre foi fazer carros de rua da melhor forma possível. Trazendo aquela mentalidade de pista para a rua, onde a excelência está nos detalhes.

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Do início até os tempos atuais, houve alguma grande mudança relacionada a oficina?

A grande mudança e eu acho que essa não foi uma mudança muito radical. Foi acontecendo ao longo do tempo. Foi o comando da oficina passar do meu pai para mim. Mas essa foi uma coisa muito natural. Nossa equipe já mudou bastante e nosso foco mudou bastante, antigamente ainda fazíamos algo de preparações para a rua. Hoje em dia não fazemos mais nada relacionado a isso.

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Assim que foi aberta, quais eram os serviços prestados pela oficina?

Realizávamos serviços mecânicos e preparações quando abrimos a oficina. Mas deixamos de lidar com preparações por uma imensa queda na demanda com o avanço das injeções eletrônicas, onde no começo nós tínhamos muito pouca informação e recurso técnico como por exemplo para aumentar a mistura. Mas quando a situação mudou, houve também a mudança de público. Eles estão muito mais preocupadas em se tudo o que nós fazemos tem uma garantia estendida. E isso não acontece, e para evitar problemas, não fizemos mais. As preparações tomam um risco inerente. E a partir do momento em que não dá certo, a pessoa tem que assumir esses riscos porque faz parte. Dar errado acontece, é comum em preparados. Tentamos a todo custo evitar, solucionar, mas eles [problemas] acontecem.

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E atualmente, quais serviços são prestados? Tendo algum problema, qualquer um pode trazer o veículo para uma avaliação do problema e orçamento?

Realizamos tudo relacionado à mecânica. Motor, câmbio, freio, suspensão, direção, tudo mecânico nós fazemos. Qualquer que seja o problema mecânico nós buscamos dar uma solução.

Como funciona o serviço de transporte que vocês oferecem?

Nós temos um guincho parceiro. Eles são pagos, mas sai mais barato que chamando um guincho convencional. Mas muitas seguradoras já trazem o serviço.

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Vocês já trabalhavam com importados ou a ampla cobertura de modelos nacionais e importados veio posteriormente?

Antes focávamos em carros modernos, em manutenção de carros atuais. Hoje nosso foco é bem dividido entre carros modernos e os antigos. Alguns modelos de destaque foram um Ford 37, Chevette com motor V6 4.3, Chevette com motor de Opala, diversos swaps de Fiat. Muitos turbos em 92, 93 e até ajudamos a desenvolver alguns kits de preparação.

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Na parede da oficina, há uma foto de um Porsche clássico (lê-se Fusca) em um autódromo com um adesivo da oficina, o carro foi um projeto da oficina ou particular?

O Fusca #82 foi um carro que meu pai fez, mas o mais importante desses nas fotos é a Brasília #16. Que é uma Brasília Divisão 1 que ganhou muitas corridas, levou as 12 horas de Goiânia, foi um carro importante. Era um azul calcinha e ela veio antes daquela Brasília famosa do Ingo com adesivo da “Creditum”.

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Ao lidar com esportivos, importados no geral e importados raros, com baixa disponibilidade de peças. Quais são os cuidados mais importantes para se ter ao realizar serviços nesses veículos?

Olha, os cuidados na verdade são para todos, nós não fazemos muita distinção se é um esportivo de 700 mil reais ou um carro de uso diário de 30 mil reais. Porque estamos aqui, como eu brinco, para “servir os automóveis”, mas estamos realmente para servir quem gosta de automóvel. E para quem gosta de automóveis, não importa se o bem dele vale 30 ou 700 mil. Ele quer que o serviço seja feito da melhor forma possível, com todo o respeito e com todo o carinho. O que tomamos cuidado é para não sujar o carro, tomar cuidado com as rodas, prestar a atenção para não sujar o carro. Ter cuidado para revisar tudo direitinho, se cai a roda num esportivo é tão perigoso quanto num carro de rua com uma família inteira. São cuidados que nós temos que ter com todos. É claro que em um esportivo você tem uma mecânica mais fina, um pouco mais cuidadosa nos detalhes, mas a nossa atenção tem que ser igual.

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Quais as precauções o proprietário deve ter antes de levar o veículo para uma oficina? Desde o transporte até cuidados em relação ao lugar.

Se conselho fosse bom seria vendido e não dado. Mas se eu puder dar um, é que busque indicações, se o seu amigo foi e gostou do serviço, principalmente se uma mulher foi e gostou do serviço. São esses indicativos, uma oficina que seja limpa e organizada, nossa oficina se você olha ela não parece uma “boutique”, ela é uma oficina, tem cara de oficina, tem cheiro de oficina, mas ela é limpa, é organizada, pode trazer sua mãe aqui, namorada, filha, ela será atendida da mesma forma. Não será ofendida com pôsteres, palavras de baixo calão, vai ter um banheiro. Eu acho que é isso, o cuidado que o mecânico tem que ter com o imóvel, com a oficina em si vai mostrar muito de como ele vai tratar seu carro. Sempre achamos que ela deve ficar organizada. E para nós que desmontamos um carro inteiro, fazemos restauração e até manutenção, se não deixarmos as coisas organizadas, não damos conta depois de procurar tudo, então temos que ser organizados. Quem gosta de carro como nós, sempre que passa vê algum carro diferente, para quem não conhece muito, pode ser vermelho, amarelo, preto, vai ser tudo Ferrari. Então para quem gosta e passa por aqui, vai ter sempre algo bacana para ver.

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Passados já mais de 25 anos, quais foram os maiores desafios para alcançar o nome e o reconhecimento da Fukuda?

Olha, eu acho que o maior desafio, sempre, para todo mundo, é manter a excelência no serviço. Porque isso demanda e é um desgaste físico e mental diário. Você vai ter que fazer isso todo dia, para todos os carros que entrarem. E eu acho que o diferencial de todas essas oficinas, incluindo a nossa, que são longevas é você se manter com vontade de fazer, tem que ter vontade para ser mecânico, trabalhar em oficina. Desculpem-me quem não entender, mas não é para qualquer um. Não é qualquer pessoa que vai conseguir se manter numa oficina mecânica. É para poucos, é duro, desgasta física e mentalmente demais. Você precisa sempre se manter focado. E a consultoria técnica, desde o Jornal da Tarde, onde meu pai foi consultor técnico por muitos anos no Jornal do Carro, até eu fazendo a consultoria da Quatro Rodas. É um reflexo de tudo isso, não é um ponto de partida ou chegada, é um caminho. Eu gosto, espero ainda fazer consultoria para a revista por muitos anos. Mas não enxergo isso como o fim ou o princípio de tudo, anda junto com todos esses valores que nós carregamos, desde o meu avô, passando pelo meu pai e espero passar isso para a frente também.

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Qual o projeto ou serviço mais complicado já realizado?

Antigamente restaurar carros era muito mais difícil pela questão da informação, hoje em dia esse difícil se torna mais difícil pelo nível de exigência que se existe. São carros com proposta de se tornarem colecionáveis, pretende-se atingir valores altos em leilões e revendas, então todos esses projetos de restauração demandam muito. Além da busca de informações, peças e resoluções. Estamos restaurando uma [Ferrari] Dino inteira, de motor, câmbio, freio e suspensão, tudo. Vamos fazer uma [Ford] F100 com swap de motor e transmissão. Tem bastante coisa acontecendo. Mas sem dúvida desmontar um carro e remontar inteiro em ordem de marcha novamente depois de 20, 30 dias é top 3 da lista, isso acho que de qualquer mecânico, de qualquer pessoa em qualquer lugar. Você desmontar todos os sistemas, analisar e remontar tudo é algo que demanda bastante.

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E qual o mais bacana realizado? Seja pelo carro, pelo desafio ou por ser diferente do usual.

Muitos deles são muito bacanas. Teve um em especial que foi uma surpresa. Quando eu fiz 18 anos, eu não ganhei o meu carro, eu tive que reconstruir meu carro sem saber. Meu pai comprou um carro, levou para a oficina. Era um Puma GTS 83 dourado e levou na oficina e disse que nós íamos fazer tudo, de motor, fibra, pintura, tudo de cabo a rabo. Eu fui o responsável dele. Depois de já ter xingado muito ele, de ter coçado, porque deu muito trabalho aquela fibra, ele me deu as chaves do carro. Então é um que me marcou muito. Mas todos são muito legais, você acaba se envolvendo com o projeto. Quem vem aqui já vem mais ou menos com a ideia do que quer, mas está sempre de cabeça aberta para ouvir sugestões. Então da mesma forma que o projeto tem a cara do proprietário, acaba tendo a nossa também. Damos algumas ideias que podem incrementar, e se torna também um projeto nosso. E isso é muito legal.

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Existe algum problema que seja de certa forma recorrente que é causado pela falta de cuidados referentes a abusos do veículo e/ou manutenção preventiva?

Existem vários, existem marcas com fama, franceses, Peugeot e Citroën tem problemas de coxim, os Renault tem problemas da bandeja, a linha Fiat já teve muito problema com borra de óleo. Antigamente os GM comiam comando de válvula, mas todas as marcas têm problemas comuns. Alguma coisa sempre acaba sendo mais recorrente que em outros momentos.

Já houve algum envolvimento da oficina com o automobilismo?

Nós já fizemos carros para a Copa Classic. Um Passat, um Chevette e um 147.

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É relativamente comum encontrar projetos para divulgação (carros para divulgação do trabalho da loja) em algumas oficinas e lojas especializadas, a Fukuda tem algum projeto assim?

Não, nunca tivemos interesse, nosso foco nunca foi esse. Jamais tivemos propaganda em lugar algum. Muitos anos ainda antes da “Quatro Rodas”, nossa divulgação era apenas o boca-a-boca. Ainda hoje 70%, se eu posso chutar, são vindos do boca-a-boca, os outros 30% são leitores da Quatro Rodas que acabam vindo. Mas como já te disse anteriormente eu acredito que a melhor maneira de confiar em alguém, é sabendo do que já foi feito para outras pessoas.

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É possível um motor Honda gerar torque?

[Risos] Todo motor gera torque, pode não ser o torque que você deseja. Mas com certeza é a melhor situação para a potência que ele buscou geral. Sempre há um compromisso de torque com potência. Não dá para você querer ter tudo. Há um momento em que você tem que abrir mão de uma coisa para conseguir outra.

Como explícito na pintura da frente da loja e ao adentrar o interior, os Porsche são muito presentes na loja, é errôneo afirmar que ele é um Fusca Gourmet?

Eu acho que é mais fácil você dizer que o Fusca é um Porsche popular. Pois o Porsche veio antes. Eles foram feitos meio juntos. Mesmo o motor 4 cilindros da Porsche, se você for ver com o Fusca, você tem diferenças muito importantes, desde o formato do cabeçote, formato de portas de escape até mesmo o virabrequim são diferenças muito importantes, que já eram diferenças na época da criação. Acho que são projetos irmãos e que se complementam. Um ajudou o outro, a popularização de um popularizou ainda mais o outro.

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E esse foi o nosso bate-papo com o Fábio Fukuda! Esperamos que vocês tenham gostado da participação de uma oficina tão conhecida no cenário brasileiro aqui no AGH. Fiquem ligados, em breve teremos mais participações no site. E não se esqueça de curtir nossa página no Facebook para saber mais novidades!

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